O medo de errar é o inimigo número 1 da criatividade e da evolução do seu jogo

O medo de errar é o inimigo número 1 da criatividade e da evolução do seu jogo
outubro 22 22:09 2015

 

Temos dois casos memoráveis para ilustrar o tema “medo de errar” no tênis brasileiro.  O primeiro envolve um tenista promissor, atlético, filho de tenista e professor de tênis, que batia os melhores juvenis da época – dois de seus fregueses da fase infanto-juvenil  ocuparam o topo do ranking profissional mundial nos anos 80.  O segundo conta a história de um tenista gordinho, filho de um senhor que dirigiu o tênis paulista por muitos anos, que quando juvenil só dava “placas”, mas que veio a se tornar um dos melhores duplistas que o Brasil já teve.aescola2

Quero dizer, antes de continuar o artigo, que são muitas as variáveis que compõe o desenrolar da vida de alguém.  Temos as predisposições genéticas, que atuam nos aspectos físico, emocional e mental de cada um, que combinadas com os estímulos do ambiente e com a força de vontade um apontam para infinitas possibilidades de vida.  Estas discussões filosóficas profundas ficam para outra ocasião.

Para fins evolutivos, a vida nos coloca frente a frente com muitas histórias, algumas são manchetes de jornal e nos fazem refletir sobre nossa própria mania de falar ao celular enquanto dirigimos (quando a manchete é sobre um acidente de carro terrível), ou sobre nossos pequenos “jeitinhos brasileiros” diários (quando a manchete é sobre mais uma CPI do Congresso Nacional).

Vamos então falar sobre esses dois jovens, não para medir suas vidas, problemas e felicidades, mas para tirarmos da experiência deles algum aprendizado.

Celso Sacomandi, promissor jovem do Bauru Tênis Clube, filho do treinador da  equipe mais vencedora do interior paulista, o “Seu” Cláudio, venceu no Banana Bowl nomes como John McEnroe e Ivan Lendl levando a taça de campeão em 1972 e 1975, e era considerado o ponto certo nos torneios interclubes e nos juvenis por equipes.

Celso tinha de ganhar, honrar com a confiança nele depositada.  O medo de não corresponder às expectativas fez com que desenvolvesse um estilo de jogo mais conservador, do tipo “colocar a bola para o outro lado”.  O medo limitou sua evolução técnica e tática: chegou a jogar profissional, mas seu melhor ranking foi 339 em 1979.

Seu “freguês” McEnroe, acabou por desenvolver um estilo de jogo ousado e irreverente, que aliado a um impressionante trabalho de pés o levou a vencer o primeiro Grand Slam (US Open) em 1979, apenas dois anos depois de ter vencido Sacomandi no Banana em 1977.

Já Cássio Motta, também campeão do Banana em 1976, o “gordinho” da nossa história, jogou uma vez um torneio infanto-juvenil em seu clube de formação, o Tênis Clube Paulista, e estava com dificuldades em acertar as bolas na quadra.  Só dava “tiros”.  Meu pai foi aconselhar o pai dele, mandando um “Seu Milton, fala pro Cássio colocar um pouco a bola em jogo!”, ao que seu Milton respondeu prontamente “Deixa o garoto bater na bola, ele gosta de bater, um dia entra”.

A bola acabou entrando mesmo, e Cássio marcou os pontos de duplas juntamente com Carlos Alberto Kyrmair que levaram o Brasil de volta ao grupo mundial da Davis em 1988, além de chegar ao Masters de duplas com o mesmo Kiki em 1983.  Seu melhor ranking de simples foi 134 em 1989.

Pensando na lição destes dois ex-atletas, é importante que estimulemos o desenvolvimento de tenistas completos, criativos e destemidos desde o início do aprendizado.  A preocupação com ranking desde a tenra idade, em detrimento do desenvolvimento do jogo como um todo, com todas as suas variações técnicas e táticas, pode limitar, e muito, o quão longe o tenista poderá chegar.

É por isso que dizemos que: antes de treinar, é preciso aprender.  O planejamento de aulas deve incluir todos os golpes básicos e também os especiais.  Por que não incluir a curtinha, o voleio com topspin, e o golpe por baixo da perna no planejamento? O golpe de direita: pressionando, defendendo, subindo à rede, passando, “lobando”, respondendo o saque, nas simples, nas duplas… Por que não deixar a criança errar, explorar, se divertir?  Resultados, ah os resultados…

Em algum momento o garoto ou garota irá descobrir e aperfeiçoar seu estilo de jogo, dentro do que mais se harmoniza com seu biótipo e personalidade.  Mas, quanto maior o repertório de movimentos, de golpes, de variações táticas o tenista tiver, tanto maior serão suas chances de se desenvolver como tenista e, por que não, de ser mais feliz em quadra.

Com maior repertório o tenista pode escolher no futuro se especializar em duplas, ou ser versátil o suficiente para jogar simples e duplas tanto nas competições por equipes do clube como também no tênis universitário.  Se optar por jogar tênis profissionalmente, contará com seus pontos fortes, mas poderá surpreender o adversário com jogadas que não costuma fazer normalmente.  Ou alguém se esqueceu das subidas à rede de Guga atrás do saque em Roland Garros?

Inspire-se e descubra também seu jeito de jogar tênis: leve, alegre e solto e criativo.

Escrito por Suzana Silva – http://www.suzanasilva.com.br

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