Novo método poderá melhorar o diagnóstico do câncer de tireoide

Novo método poderá melhorar o diagnóstico do câncer de tireoide
dezembro 15 12:59 2015

Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Oncogenômica (INCITO), do A.C. Camargo Cancer Center, identificaram um conjunto de genes que servem de biomarcadores para o diagnóstico da forma mais prevalente de câncer tireoidiano.

A descoberta possibilitou a criação de um método preciso, barato e rápido para identificar o carcinoma papilífero de tireoide, para o qual já foi solicitada a patente.

Os resultados do estudo, realizado durante o doutorado de Mateus de Camargo Barros Filho, foram divulgados no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.

A pesquisa foi orientada por Luiz Paulo Kowalski, coordenador do INCITO – um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apoiados pela FAPESP em São Paulo. Silvia Rogatto, membro do INCT e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, foi coorientadora do projeto.

“A biópsia pela punção aspirativa por agulha fina é hoje o principal método para determinar se um nódulo tireoidiano é benigno ou maligno. Mas em torno de 20% dos casos o resultado é indeterminado e, por precaução, o paciente é submetido à cirurgia para retirada da glândula. Análises posteriores, no entanto, revelam que em 60% dos pacientes com diagnóstico indeterminado a cirurgia seria desnecessária”, contou Rogatto.

Embora seja possível fazer a reposição artificial dos hormônios produzidos pela tireoide, comentou Rogatto, a retirada cirúrgica da glândula costuma trazer efeitos adversos e requer tratamento para o resto da vida. “Em alguns casos, a paratireoide deixa de funcionar e o paciente torna-se dependente de suplemento de cálcio. Ocorre um descontrole na absorção de fósforo, magnésio e outros minerais importantes para o organismo”, disse.

Segundo o banco de dados Surveillance, Epidemiology and End Results (SEER), do National Cancer Institute (Estados Unidos), a incidência do câncer de tireoide triplicou nos últimos 35 anos. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou 9.200 casos novos em 2014, sendo 8.050 em mulheres.

Estudos brasileiros indicam que a cidade de São Paulo apresenta uma das maiores taxas, com um aumento de incidência ainda superior ao dos Estados Unidos. Entre as causas apontadas estão a melhora no diagnóstico, graças ao exame de ultrassonografia com punção por agulha fina.

“Esse aumento na incidência de câncer tireoidiano é quase exclusivamente atribuído ao carcinoma papilífero de tireoide (CTP), que é o subtipo mais frequente. Embora esse tumor tenha, de maneira geral, um bom prognóstico, representa um problema de saúde pública por ser muito comum e requerer procedimentos cirúrgicos”, comentou Rogatto.

A busca por biomarcadores

timthumbCom o intuito de aumentar a precisão diagnóstica e reduzir o número de cirurgias desnecessárias, o grupo do INCITO iniciou em 2011 uma busca por marcadores moleculares que ajudassem a diferenciar as lesões benignas das malignas.

O estudo foi feito com amostras de tecido tireoidiano extraídas cirurgicamente de mais de 350 pacientes – armazenadas no biobanco do A.C. Camargo Cancer Center. Foram incluídas tanto amostras com diagnóstico de câncer e lesão benigna confirmada histopatologicamente quanto amostras não neoplásicas. Nesta casuística também se encontravam os casos indeterminados.

Por um método conhecido como microarray, os pesquisadores analisaram a expressão de transcritos codificadores de proteína, os RNAs mensageiros.

“Inicialmente fizemos estudos com amostras pareadas, isto é, comparando o perfil de expressão do tecido normal e tumoral de um mesmo indivíduo. Depois comparamos várias amostras de tecidos normais com várias amostras de tumores, não pareadas. Por último comparamos o perfil final das análises feitas com amostras pareadas e não pareadas e encontramos enorme concordância dos resultados”, contou Rogatto.

Em seguida, foi feita a validação dos biomarcadores em um grupo diferente de amostras (138 pares de carcinoma papilífero e tecido não neoplásico adjacente) de tecido tireoidiano com bancos de dados externos, armazenadas no banco do The Cancer Genome Atlas , consórcio ligado ao National Cancer Institute que reúne dados genômicos e clínicos de pacientes de diversos países, e do Gene Expression Omnibus .

“Observamos uma identidade muito grande, mostrando que nossos achados têm validação externa e não são específicos da população brasileira”, disse Rogatto.

Com o auxílio de ferramentas estatísticas, os pesquisadores selecionaram uma lista de genes que permitisse diferenciar nódulos benignos e malignos. As primeiras validações foram feitas por meio de simulações computacionais, até chegar a um grupo de cinco genes que apresentaram alta seletividade e especificidade para identificar o carcinoma papilífero de tireoide.

“Três desses genes estão diferencialmente expressos no tumor e os outros dois servem como referência”, explicou a pesquisadora.

Foi desenvolvido um método para avaliar a expressão desses cinco genes-alvo por meio de um ensaio baseado na PCR (reação da cadeia da polimerase) em tempo real – patenteado pelo grupo do INCITO. Segundo Rogatto, a análise também permite identificar os pacientes com maior risco de comprometimento dos linfonodos cervicais e que, portanto, necessitam de uma cirurgia mais agressiva.

“É possível fazer o ensaio com uma pequena amostra de tecido, com baixo custo. Acreditamos que seria viável desenvolver um kit diagnóstico muito útil para a prática clínica”, disse Rogatto.

Antes, porém, o grupo pretende validar o método com tecido tireoidiano obtido por meio de biópsia. “Estamos aguardando autorização do Comitê de Ética da nossa instituição para testar a metodologia em restos de tecido que sobram após o exame citológico feito após a biópsia”, contou.

Paralelamente, o grupo do INCITO trabalha na validação de outros biomarcadores que permitam diferenciar o carcinoma papilífero de outros subtipos de câncer tireoidiano menos frequentes e mais agressivos, como o carcinoma folicular e o carcinoma anaplásico

Karina Toledo | Agência FAPESP

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